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Milton Banana - O Ritmo e o Som da Bossa Nova - 1963

  • 1 de jan. de 2016
  • 4 min de leitura

Eis que chegamos em 2016! Desejo a todos um feliz ano novo e que a cada dia eu possa pesquisar mais e oferecer mais àqueles que me dão a honra de acompanhar esse modesto trabalho.

Mas vamos aos serviços e a primeira postagem do ano é a difícil missão de falar sobre essa grande obra (dentre tantas outras lançadas pelo mesmo), tentando entender um pouco de quem foi Milton Banana, um dos bateristas mais importantes, não só da MPB, mas digo sim que do mundo.

Milton, que na verdade se chamava Antonio de Souza, começou a ser chamado de Milton pela própria mãe (talvez não tenha gostado da opção que o pai escolheu para nomear o menino) e acabou por realmente virar Milton. O "Banana", podia ser oriundo de uma história maravilhosa e empolgante, mas.... Não! Antonio (No caso Milton), gostava muito da fruta, começaram a chamá-lo assim e no fim não sobrou nada de Antonio de Souza, talvez um processo de mudança necessário e que gerou esse nome artístico um tanto quanto inusitado e curioso.

Milton era um músico autodidata e que tem para a Bossa Nova, importância similar a de João Gilberto e Johnny Alf.

João foi o cara que inventou a "batida diferente", lançada no clássico álbum "Chega de Saudade" (e que MIlton Banana gravou as baterias). Existem histórias de que Johnny Alf insistia em dizer que era o pai da criança, mas mesmo não sendo, sem dúvidas foi também fundamental com seu piano, mas faltava quem conseguisse desenvolver uma batida que permitisse à bateria um lugar em meio a esse ritmo tão diferente; foi aí que entrou Milton Banana, criando essa levada gostosa, marcada em sua grande maioria de tempo no aro da caixa, a baqueta "vassourinha" estrategicamente delsizando sobre o chimbal e sua peculiar técnica de bumbo, mas sem deixar de mostrar seu virtuosismo em determinadas canções, desenvolvendo solos maravilhosos.

Milton, por conta da técnica apurada, foi sempre um dos músicos mais requisitados do período Bossa Nova, chegando a acompanhar nomes com Roberto Menescal, o já citado Johnny Alf, Carlos Lyra, Baden Powell, Sérgio Mendes; Dentre outros ícones do gênero.

MIlton, além desse baterista incrível mesmo sendo autodidata, é um dos grandes (se não o maior) responsavel pela carreira da grande Elza Soares. Os dois namoraram durante algum tempo e pacientemente Milton ensinou conceitos musicais à Elza (o que foi fundamental para torná-la a grande artista que é), mas acabou levando "um carrinho por trás, dentro da pequena área" (e sequer levou um cartão amarelo) do craque Garrincha, que chegou e tomou Elza de MIlton, que reza a lenda, era botafoguense, equipe de onde Garrincha era o grande craque e ídolo na época. Que dureza heim, Miltão...

Mas vamos voltar a está grande obra da nossa música instrumental, que começa com "Você e eu" (Carlos Lyra / Vinicius de Moraes) que por sí só já é um tema lindo, mas nessa vibe instrumnetal ganhou todo um charme e ficou de encher os olhos e agraciar aos ouvidos.

A segunda canção é Bossa Nova Blues (Oscar Castro Neves), onde Milton mostra tamanha versatilidade em introduzir o "Cowbell" (instrumento de percussão que lembra muito a sonoridade de um sino de vaca) e que caiu como uma luva.

Outro destaque é a faixa Influência do Jazz (Carlos Lyra), não só pela genialidade de Milton, mas por todos os músicos que o acompanharam nessa obra. Nessa canção MIlton quebra tudo em alguns pequenos solos, feitos na virada de algumas estrofes. Em determinado momento, rolam umas convenções, dando um ar latino à canção, Coisa fina!

Para fechar a postagem, comento apenas sobre mais duas músicas (deixando claro que o álbum todo merece ser escutado com carinho).

Em O Amor e a Rosa (Pernambuco / Antônio Maria), destaque para o sax de Leo Wright que tem papel de destaque ao longo de toda a música, até o momento em que Milton faz um grande e maravilhoso solo, que só afirma o quão grandioso músico foi

Na minha opinião, o ponto mais alto do álbum fica por conta de "O Apito no Samba" (Luis Bandeira / Luis Antônio), com uma belíssima harmonia, participação mais evidente de todos os instrumentos na mesma proporção, mas com um destaque para o solo da maravilhosa guitarra semi-acústica de Henry Perci Wilcox (daqueles que se fecha os olhos e se deixa ser levado pelas ondas sonoras), que já é logo seguido por um solo de piano, igualmente lindo e marcante, do grande Oscar Castro Neves. Acredito que seja impossível ouvir a canção uma única vez, são muitos detalhes, muitos elementos; e para os que gostam de se atentar às pequenas e significativas nuances, há muito que se escutar para não perder um só detalhe. Nessa canção Milton explora mais recursos de sua bateria, usando e abusando dos pratos de ataque e condução, tons, cowbell; deixando um pouco mais de lado a levada de aro da caixa e proporcionando um show de versatilidade.

Milton faleceu no ano de 1999, no Rio de Janeiro. Existem pouquíssimos registros dele em movimento, mas para quem curtir esse som, há muito o que se escutar desse instrumentista maravilhoso, em especial dos tempos em que tocou com o "Milton Banana Trio".

Abra um vinho, vá até a varanda, apague todas as luzes e deixe o resto por conta de Milton e sua trupe.

Faixas:

01 – Você e Eu (Carlos Lyra / Vinicius de Moraes) 02 – Bossa Nova Blues (Oscar Castro Neves) 03 – Não Faz Assim (Oscar Castro Neves) 04 – Influência do Jazz (Carlos Lyra) 05 – Desafinado (Tom Jobim / Newton Mendonça) 06 – O Amor e a Rosa (Pernambuco / Antônio Maria) 07 – O Apito no Samba (Luis Bandeira / Luis Antônio) 08 – Chora Tua Tristeza (Oscar Castro Neves / Luvercy Fiorini) 09 – O Menino Desce o Morro (De Rosa / Vera Brasil) 10 – Chega de Saudade (Tom Jobim / Vinicius de Moraes) 11 – Boato (João Roberto Kelly) 12 – Samba de Uma Nota Só (Tom Jobim / Newton Mendonça)

Músicos:

Milton Banana - Bateria

CONJUNTO DE OSCAR CASTRO NEVES

Oscar Castro Neves - Piano

Iko Castro Neves - Baixo Acústico Henry Perci Wilcox - Guitarra Roberto Pontes Dias - Percussão Leo Wrigh - Flauta e sax


 
 
 

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